Um Ano Sabático – Quando a gente se sabe

Enfim chegou à sua cidade…

Estava saudosa da sua cama. Do cheiro da sua casa. Ninguém foi buscá-la no aeroporto. Preferiu assim. Já tinha andado tanto sozinha… por que não agora? Aprendera, ou melhor, notara, quando viajava, que gostava dessa sensação de se sentir livre. Não era um se sentir livre de fazer o que quisesse. Isso já tinha. Mas a liberdade em si, do agir, de um estado de ser quem realmente era. Quase uma desconhecida. E de certa forma fazia com ela preservasse aquela sensação de ainda estar viajando…

Era inverno. O céu anunciava que logo a noite chegaria. Teria que esperar o dia seguinte pra ver a cidade. A cidade cinza. Das linhas. Dos fios. Das caixas. Dos poucos jardins. Do sem tempo. Do preto no branco. Fazia parte disso e se questionava o quão impressionante era que tivesse preferido voltar. Perguntava-se ainda do por que, mas amava estar de volta. A cidade estava vazia,  era feriado. Mas logo estaria explodindo de buzinas e carros.

Quando o táxi parou em frente ao seu prédio se sentiu como uma criança ansiosa para abrir os presentes na noite de Natal. O porteiro, logo a reconheceu, e se dispôs a ajudá-la. Apreciou esse momento, mas o fato é que não trazia muitas malas. Na verdade voltava com uma mala a mais e daquelas de cabine. Nada de excessos. Desapego. Menos é mais.

Abriu com cuidado a porta de casa e inspirou profundamente a doce sensação de estar na sua casa. Queria abraçar cada uma de suas plantas e a árvore, sua vizinha, que fazia parte da sua casa. Tinha sentido falta dela. De certa forma aquela árvore tinha sido sua âncora nos momentos de turbulência. Sua base e seu escudo. Tempos atrás, em alguns momentos de depressão ficava sentada no chão da sala olhando para aquela árvore que de alguma maneira, ainda que imaginária ou simbolicamente, ajudava-a fincar os pés no chão e a se levantar. Aquela paisagem fortalecia assim a si própria.

Sua casa estava limpa e arrumada. Suas irmãs tinham cuidado de tudo para recebê-la. Flores, mimos, chocolatinhos, bilhetinhos e surpresinhas. Na geladeira tinha tudo que ela gostava para o primeiro café da manhã e até o chazinho da noite. Se emocionou. Era essa sensação de pertencimento que talvez tenha apressado sua volta.

Queria um banho e cama. Mas estranhamente não havia água quente. Verificou o gás. Nada. As pilhas do aquecedor. E nada. Recorreu ao chuveiro elétrico. Nada de água quente. Sentiu subir aquele súbito mal humor. Ok ok ok vamos de água fria mesmo. Amanhã resolvo isso. Mas amanhã era domingo de véspera de feriado. Acabou que no dia seguinte debandou para o sítio de uma amiga.  Alguém perguntou.

– Mas mal chegou e já vai de novo?

Quando voltou foi resolver o problema da água quente e descobriu que estava abrindo o registro errado de água, por isso a água quente não chegava. Riu da situação – mais de 10 anos abrindo o registro “de um jeito”, bastou ficar dois meses fora e já tinha se adaptado ao outro jeito. Bom sinal.

As buzinas começaram, o trânsito e o inverno se mostraram pra valer. A medida que ia avisando um e outro amigo que estava de volta, a vida social começava a tomar forma. Ela gostava. Sempre gostou de pessoas. Embora sentia-se um pouco preguiçosa nos últimos tempos. No fundo, sabia,  a dor das perdas, tinham a ensinado a ficar sozinha (mesmo). De certa forma, até gostava. Ficava bem. Revia e organizava fotos, se cercava de livros e revistas, e começava a escrever… Não eram mais desabafos, lamentos ou rompantes de alegria das coisas boas e novas, como escrevia nos diários de alguns anos atrás. Era uma conversa nova, de mulher pronta; apesar de ainda se sentir uma menina, sabia que tinha amadurecido.

Meio que em um processo de metamorfose, passou aquele mês, talvez um pouco demais, no seu casulo. Sem hora para acordar ou dormir, sem rotina. Seu único compromisso era estar livre com ela mesma. Se teletransportou para a literatura do mundo de Murakami e leu os dois primeiros volumes de 1Q84. Mergulhou nas sessões de cinema e DVD.

Entre cafés, almoços e jantares encontrava os amigos. Redescobriu sua cidade através das longas e solitárias caminhadas que fazia. Saboreava cada prato ou sobremesa que havia sentido saudades. E parecia que não largaria mais o hábito de tomar uma taça de vinho todos os dias. Fotografava cada descoberta ou redescoberta. Passava muito tempo buscando coisas novas. Consumiu muita informação. Sabia que muito poderia ser feito, mas não sabia ainda por onde começar.

Não lembrava desde que começou trabalhar (e isso aconteceu cedo), das vezes que tinha ficado sem trabalho (leia-se emprego) em que passasse um dia sem pensar como e quando arrumar um novo trabalho. Mas agora, era diferente. Era inédito. Não tinha dívidas. Fez contas e poderia viver de suas reservas por um tempo. Não que esse fosse o objetivo. Mas precisava de tempo para seguir  seu caminho daqui pra frente. Precisava arriscar. Fez alguns cortes. Se quisesse mudar de vida sabia que teria que mudar a forma de ver as coisas ao redor e a si própria. O ditado menos é mais teria que ser pra valer. Tinha pensado em passar um tempo maior fora do país, ainda poderia considerar essa possibilidade. Entretanto, no fundo do seu coração, sabia que não era isso que iria mudar sua vida, mas sim uma atitude de dentro pra fora, de ação presente, para fazer o que realmente queria fazer – além de voltar a estudar, ter um trabalho que a realizasse. Tinha chegado o momento de contribuir de outra forma para sociedade e para si mesma. Era nisso que pensava e acreditava… Aliás, frequentemente, lhe ocorria como alguém poderia não pensar nisso?

Não sabia de onde tirava a certeza que as coisas aconteceriam. Era uma questão de tempo. E se não conseguisse, se precisasse, se adaptaria e voltaria ao mercado “tradicional” de trabalho.

– Mas e agora?

– O que você vai fazer?

– Quanto tempo vai ficar assim?

– Assim como? Pensava ela… Assim, feliz?

Percebeu que seria mais difícil mudar como as pessoas a viam, que a si mesma… Simplesmente porque as pessoas não esperam que você mude. Começou a entender o preço dessa fase nova da sua vida.

 Tinha deixado muitas coisas pra trás e sentia que agora era pra valer. Já não queria perder tempo com coisas pequenas. E de certa forma achava que tudo era pequeno. Não por descaso das coisas ou por se sentir soberba. Mas entendia que as coisas que enxergava antes como grandes, se tornaram pequenas, e as pequenas, grandes. Coisas vêm e vão.

Um dia pareceu ter compreendido o real significado do sabático. Era como percorrer o caminho de Santiago de Compostela. Mesmo não tendo percorrido este de fato, o sentido, segundo alguns relatos que ouvira, era o mesmo. Não importa o lugar ou o caminho percorrido, importa a presença e a lucidez durante o trajeto… E as escolhas.

p.s.: Foi mais difícil escrever esse post e em terceira pessoa. Mas tinha que ser assim. Precisava olhar de “fora”, como um observador minha chegada em São Paulo, depois de dois meses pode-se dizer “na farra”. Foi um momento especial de introspecção para processar os últimos quase 3 anos somados a redescoberta ou resgate da minha alma (que voltava de férias, pra quem acompanhou meus escritos desde o começo). Uma desconstrução que reconstrói.

Confira todos as partes desse ano sabático aqui.

3 comentários COMENTE TAMBÉM

Muito lindo. Acho que todos nós devíamos ter essas “paradas”, o problema é que nem sempre a situação financeira nos permite ficar sem fazer nada kkk. Mas gostaria muito de um dia me permitir a um momento como esse.
Obrigada por compartilhar sua experiência conosco.
Escreva sempre, é muito bom ler seus textos S2
Beijos!

Oi Marina, sim, todos/as nós MERECEMOS essas paradas 😉
Acredite nisso. A minha demorou pra acontecer e veio na hora certa. Também gosto de pensar que tudo tem seu tempo.
beijo grande, e acompanhe aqui os próximos posts
obrigada!
beijos

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