Pecados Modernos – Gula

Eu não devia estar naquele local. Caminhei hesitante até ali, como se minha mente tentasse retomar o controle sobre meu corpo, mas era inútil. Assim que a imagem havia aparecido em minha mente soube que a luta estava perdida.

A imagem: o x-bacon da lanchonete à quatro quadras do escritório. O rei dos sanduíches, praticamente um deus das delícias terrestres. O bife era feito com alcatra da melhor qualidade, sempre suculento. O bacon era sequinho, uma surpresa crocante. O queijo derretido deixava cada mordida cremosa e suntuosa. O pão era torrado no ponto certo com quantidades inescrupulosas de manteiga. E para fechar o conjunto, a melhor maionese caseira da face da Terra; uma mistura da simplicidade de infância com ervas finas exóticas que fazem pensar nos ventos perfumados da Grécia.

Minha boca salivou quando a mistura de todos esses aromas chegaram às minhas narinas. Estava no meio da dieta detox, e há três dias não comia nada sólido. O desejo e a culpa alternavam-se, ambos esmagadores.

Sentei-me isolada ao fundo e passei os olhos nas outras mesas, observando meus cúmplices.

A maioria era de pessoas como eu, nem muito gordas, nem magras, que travavam a mesma batalha diária com as gorduras localizadas. Essas tinham um ar arrependido, mas não eram hostilizadas pelo bando de feras vorazes que havia na lanchonete.

Já as pessoas com o peso acima do “socialmente desejável” eram fuziladas pelo preconceito. Havia três tipos de olhares dirigidos aos gordinhos.

O primeiro era o “Sherlock do vigilantes do peso”, de quem havia feito uma brilhante descoberta: é por isso que é gorda desse jeito.

O segundo era o clássico “quem avisa amigo é”: você não devia estar aqui.

E o último e pior de todos, era a satisfação cruel do “pelo menos tem gente pior que eu”.

Mas nada disso chegava aos pés do ódio dirigido à uma pessoa em particular. Ela estava sentada com o namorado, e os dois mordiam seus hambúrgueres de forma trivial, como se aquele momento não precisasse de celebração nem culpa. A atitude da garota denunciava sua natureza. Ela era uma “magra de ruim”, e mesmo eu me juntei ao bando para lançar olhares raivosos em sua direção.

– Já escolheu?

Havia algum julgamento na pergunta do garçom? Pensei em responder x-salada para parecer mais consciente, mas minha dieta iria por água abaixo de qualquer forma.

– Um x-bacon e um milk-shake de chocolate.

– Acompanha batatas?

Aquilo era um sugestão ou uma critica à minha falta de amor próprio?

– Sim.

– Porção extra de maionese?

Desconfiei que o jovem estava querendo me humilhar. Mas mesmo assim concordei com a cabeça.

Meu telefone tocou. Olhei aterrorizada para o nome que brilhava na tela.

– Oi Eliza. – Respondi.

– Thaís, me ajude, estou quase desistindo do detox.

Uma piada de mal gosto do destino. Mas não era por que eu havia jogado a toalha que sabotaria minha amiga.

– Só mais dois dias, aguente firme. – Tentei colocar convicção na voz. – Quando você ver o resultado vai achar que valeu a pena.

– Você tem razão. Vou tomar uns dois copos de água para ver se a fome passa. Beijos!

Foi por pouco, muito pouco. Segundos depois alguém ligou o liquidificador, e o som estridente poderia ter me desmascarado. A vergonha da mentira me inundou e soube que nunca conseguiria confessar que enquanto ela tomava água eu ingeria duas mil calorias. Por um breve momento pensei em sair correndo daquele antro de perdição.

Mas então meu hambúrguer chegou.

Tão lindo e tão alheio à minha busca por um corpo perfeito. Se meu instrutor da academia me visse diria que aquilo era um crime. E eu responderia que a única vítima era eu. Minhas amigas tentariam me impedir e diriam que todo o esforço teria sido em vão se eu desse a primeira mordida.

Mergulhei e meu corpo pareceu comemorar da mesma forma que uma torcida comemora um gol aos quarenta e oito do segundo tempo.

Ah, a gula! Um pecado que permeia qualquer corpo. Que nos assombra sem aviso no meio da tarde ou da noite. Ao qual mesmo os mais fortes acabam se rendendo. Um pecado de todos.

E quem nunca se fez de sonso para não oferecer o último biscoito do pacote, que atire a primeira pedra.

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