Pecados Modernos – Inveja, o pecado dos outros

Rodei minha pulseira life no braço. Sempre fazia isso quando estava ansiosa. Depois brinquei com os pingentes de olho grego e de trevo de quatro folhas, ambos de ouro branco.

Estava sentada em frente ao computador, fingindo que checava os e-mails. Mas meus olhos escapavam da tela o tempo todo, vigiando a porta do presidente que continuava fechada. A reunião estava marcada para acabar meia hora atrás, e até agora nada.

Os diretores reuniam-se uma vez por mês, e eles com certeza decidiriam quem seria o novo gerente de marketing. Minha última entrevista tinha acontecido há duas semanas, e um passarinho verde me contara que os outros candidatos também já tinham passado pelo RH.

Eu mesma estranhava meu nervosismo. Nenhum dos outros gerentes de produto tinha tanta experiência quanto eu. Minha marca era a maior, e por isso sofria mais com a crise econômica – nada de anormal nisso. Geraldo era o último a chegar e o primeiro a sair do escritório (não trabalhava nem onze horas por dia). E a outra… Melina tinha um ano de empresa, era responsável pela menor marca, mas gostava de se vangloriar por ter dobrado o market share em tão pouco tempo. Ir de nada a quase nada era fácil, queria ver segurar a queda nas vendas como eu tinha feito.

E mais, todo mundo vinha me dizer “Carla, a vaga é sua com certeza” ou “Carlinha, você é a única que está preparada”. Só um cego não veria isso, mas o problema era que eu tinha inimigos no escritório. Pessoas que me odiavam pelo meu sucesso. Como dizia minha mãe, “inveja é uma merda”.

Mas tudo bem, tinha convivido com isso vida toda. Era de boa família, sempre a melhor da classe e minha carreira havia decolado como um foguete. Ah, e eu tenho olhos azuis. E, sinceramente, sem hipocrisia, quem não quer ter olhos azuis?

Por isso sempre me protegi. Na entrada da minha casa havia um espelho bem grande, para já rebater o mau-olhado das “amigas”. Ia no centro tomar passe pelo menos uma vez por mês. Deixava sempre um copo com água e sal grosso atrás de cada porta. E foi exatamente essa última proteção que me alertara: nessa semana a água tinha ficado bem escura. Suspirei preocupada.

Toquei involuntariamente a tatuagem de Hamsá que tinha na costela direita. Era meu melhor amuleto contra a inveja alheia; sempre comigo, impregnado em minha pele. E como se a sorte estivesse ao meu lado, nesse momento a porta se abriu. A adrenalina inundou minhas veias. Era agora.

Marco, o diretor de marketing, entrou em sua sala e chamou Melina. Ela se levantou e não lançou nem mesmo um olhar para trás antes de fechar a porta. Claro, Marco chamaria os outros dois primeiro para explicar porque eu tinha sido escolhida.

Alguns minutos depois foi a vez de Geraldo ser chamado. E eu…

Eu? Junto com Geraldo? A situação não me agradou nada, nada. Arrumei meu terninho Armani e caminhei com a cabeça erguida.

– Pessoal, gostaria de anunciar que Melina será nossa nova gerente de marketing. – Marco disse com um sorriso que só não era maior do que o da vaca invejosa.

Senti uma veia pulsar em minha testa e pisquei várias vezes para ter certeza que aquilo era real. Fiz um esforço sobre-humano para manter a compostura. Geraldo foi o primeiro a dar os parabéns e eu também vesti meu personagem.

– Parabéns, Mel! – Sorri e a abracei. – Muito merecido, parabéns mesmo.

Não conseguia acreditar que a toupeira anoréxica seria minha chefe.

– Obrigada, Carla. – Ela sorriu de volta e segurou minha mão nas dela. – Seremos um grande time, fico lisonjeada de liderar alguém competente como você.

Exatamente, queridinha, falou tudo. Diferente de você, eu sou muito competente.

– Não tenho dúvidas que você vai decolar como gerente de marketing, – garanti. E depois cair igual avião da Malasya Airlines, pensei para deixar o sorriso mais verdadeiro.

Geraldo balbuciou qualquer coisa em apoio e voltamos ao trabalho.

Passei o dia repassando na cabeça todas as entrevistas, pensando o que podia ter dado errado. Era tão injusto que não me conformaria nunca. Sentia-me pesada, carregada de energias ruins, e cheguei à conclusão que aquilo era inveja.

Eu era invejada demais. Todos queriam estar no meu lugar, todos queriam ser iguais a mim. Aposto que a cachorra sonsa tinha feito alguma macumba para que eu fracassasse. Porque merecer o cargo, isso ela não merecia.

Mas não desceria ao nível dela. Ia manter a cabeça erguida e assistir sua derrota de camarote. Ia confortá-la quando me desse a notícia; “você estava indo tão bem, como assim te demitiram?”. Então traria uma caixa de papelão para ajudá-la a juntar os mini-cactos e as fotos melosas dela e do namorado. E aí finalmente a mesa de gerente de marketing seria minha! Minha! Mwahahaha!

Imaginei uma risada maligna. Mas obviamente me contentei em sorrir pois a última coisa que queria era meus colegas achando que tinha enlouquecido com a derrota. Ou pior, que achassem que eu (eu!) estava com inveja da pamonha sem sal.

Na volta para casa passei na floricultura e comprei um vaso de pimentinhas. No dia seguinte amanheceram todas murchas, confirmando minhas suspeitas. Energia pesada me circulando, gente demais me invejando.

Cheguei a ter dó dos pobres coitados. Ainda bem que eu pelo menos nunca tivera inveja de ninguém; desse mal era apenas vítima. Dei um beijinho em meu ombro para me resguardar. Minha mãe é que sabia das coisas. Inveja é mesmo uma merda.

27 comentários COMENTE TAMBÉM

Inveja e um dos sentimentos mais horriveis do seu humano. Estava conversando com uma amiga sobre isso, como pode alguem nao quero o teu bem ou querer ter o teu lugar…

agfff

http://ladycatblog1.blogspot.com

Que texto raso e sem nexo, parece redação de quinta série!

Oi Bruna! Poxa, que pena que você não gostou, mas faz parte. Quem sabe na próxima! 😉

Perfeito o texto! Retrata o que infelizmente enfrentamos no dia adia, principalmente no ambiente de trabalho!
Estou adorando essa série “Pecados Modernos”: os textos super interessantes e envolventes e as ilustrações lindas!
Parabéns!

Oi Paty! Que bom que você gostou 🙂 A ideia é retratar mesmo como esses “pecados” permeiam nossas vidas diariamente, espero que goste dos próximos também. Beijão.

Antes de mais nada, queria parabenizar a Bia Perotti (não a conheço, nunca nos falamos, tampouco somos amigas, rs) pela iniciativa de colocar em seu blog uma série que reflete os 7 pecados capitais. Li o primeiro da Gula, e agora o da Inveja, e mal vejo a hora do próximo.
Os textos são ótimos, de leve tom, e que exemplifica a maioria dos casos que as pessoas passam pelas empresas, neste texto, alguém alguma vez já esteve em um desses lugares. A ficção é a melhor forma de expressar os fatos.
Estou adorando e tenho certeza que aqui mesmo neste post ja tem muita inveja, seja ela “boa”, por exemplo, eu queria escrever assim, rs e inveja “ruim”.

Parabéns à escritora e à Bia Perotti!

obs: Desenho maravilhoso!

Juliana, obrigada pelo comentário! :* Também acho que a ficção é uma maneira ótima de representar a realidade, e nos ajuda a refletir melhor já que estamos olhando “de fora”. O desenho mara é da Cris Girardi, ela manda muitoooo

Paola, aguardo toda semana pelo seu texto aqui no blog! Obrigada pelo texto delicioso. Deixa o dia mais leve!

Helvia, comentários assim também deixam meu dia mais leve! 🙂 Que delícia saber que você está acompanhando e aguardando os outros, espero continuar te surpreendendo. Super beijo!

Estou adorando os textos!!! Ansiosa pelos próximos!! Parabéns!!!

Oi Karina! Que bom que você está gostando, fico aqui dando pulinhos de alegria sempre que recebo um comentário legal. Super obrigada!!! Sexta que vem tem mais 😀

Assim como os outros, este texto está maravilhoso!
Mais uma vez reflete exatamente o que os pecados capitais representam no nosso cotidiano.
As ilustrações são esplendorosas e ajudam a coroar o sucesso das publicações! São lindas demais, dignas de uma exposição 🙂 Parabéns à toda equipe!

Manuela, obrigada pelo comentário fofo!!! 🙂 que bom que você está gostando. E concordo que as ilustrações são maravilhosas, a Cris Girardi sempre foi uma artista e merece esse reconhecimento!
PS: vamos dar um empurrãozinho para ver se essa exposição sai! 😀

Interssante mesmo. A inveja é sempre dos outros, nunca nossa. A invejosa maior do texto é a própria personagem.

Pois é Lidia! A ideia é realmente gerar uma reflexão e fazer com que fiquemos atentas ao que sentimos 🙂 obrigada pelo comentário!

Realmente a inveja rodeia a todos, inclusive a ela, que ao ver que Milena ganhou a promoção também sentiu uma “invejinha”. Acontece que isso acaba sendo normal (o que não faz sentido, e não deveria ser!), mas as vezes acontece. É aquela velha historia, “Nossa! Porq aquele cara liiindo está com aquela garota sem sal!” ou “Aquele sapato que fulana comprou é perfeito, mas ficaria melhor em mim..” entre outras coisas….
Mas esse texto nos faz pensar um pouquinho na vida, a gente se protege tanto com a inveja dos outros, que as acaba esquecendo que alguns de nós também sentimos sem perceber!
Adorei a mensagem que ele passou.

Oi Letícia. Nossa, ótimas sacadas! Realmente em muitos desses nossos comentários “inocentes” tem inveja envolvida. E o pior é que a gente nem percebe! Ou prefere fingir que é apenas uma constatação de fatos – gente, não to com inveja, só acho que ele é muito bonito pra ela mesmo – do que uma dor de cotovelo.

A gente acha que inveja direcionada a nós faz mal, mas não tem nada pior do que se sentir inferior que alguém e desejar o mal simplesmente porque tem alguém mais feliz… Aceitando nosso ritmo, nossas limitações, nossos defeitos, nosso corpo(!) e valorizando nossos pontos positivos fica mais fácil ser feliz. 🙂

Você sofre do transtorno “eu sou o centro do universo” faça uma reflexão talvez você não seja tao boa quanto pensa, fica dica

Não costumo comentar, e muito menos para criticar.. Mas gostaria só de talvez chamar a atenção para alguns temas do texto.
Para além da autora reforçar uma competição típica capitalista, completamente desprovida de uma visão um pouco mais humanista e social do seu entorno, na qual todos não passam de “competidores” para uma promoção, vi nesse relato uma perspectiva incrivelmente machista. E a essa altura do campeonato, com tanto gente chamando a atenção para essa questão, me entristece um texto dessa natureza.
Primeiro que você só teve o ódio direcionado a sua “concorrente” feminina. Por acaso o homem era por natureza mais incapaz? Ou desmerecedor dos seus adjetivos? E aí, chamar a sua colega de “vaca”, “cachorra”? Jura? No século XXI? Me assombra ver mulheres tratando mulheres de maneira tão chula e preconceituosa.
Enfim, não tenho nenhuma intenção de te ofender ou te inibir dentro desse espaço, mesmo. Acho que talvez me sinta (por eu mesma ter começado a perceber tarde os meus próprios atos machistas e preconceituosos) na obrigação de falar algo.
mas espero que você se realize nos seus desejos… sem invejar nada.

Oi Beatriz! Pois é, concordo com você, em pleno século XXI e tem mulher que ainda é xingada de vaca, cachorra, piranha, jararaca (e os animais não tem nada a ver com nossos problemas)… Isso acontece diariamente e também fico revoltada. Minha maneira de protestar é retratar essa realidade numa personagem “vilã”. Fingir que não acontece ou fazer histórias onde esses problemas não existem não gera as discussões necessárias.
O que é legal na escrita é que cada frase tem uma interpretação pessoal, que varia dependendo de nossa personalidade e experiências. Não acho que há inveja no seu comentário, apenas uma vontade de igualdade entre os sexos e do fim de estereótipos. Estamos juntas, cada uma lutando da forma que acha melhor. 🙂

Nossa, Paola, sabe que depois que escrevi pensei que talvez eu que pudesse ter interpretado mal o texto???
Acho que porque estamos tão acostumados a ler experiências pessoais em blogs, e também não conhecia o projeto dos 7 pecados, não atentei para essa possibilidade! Me desculpe! Mas que bom que dividimos a mesma visão, então. Apesar de não haver problema nenhum na divergência também.
Fico feliz em ler tantas mulheres chamando atenção para essas questões!
De novo, desculpe pela interpretação pobre!

Adorei o texto! Escrita muito inteligente!
Parabéns

Nao gostei do texto.Nao da para entender qual a mensagem que vc quer passar com ele.Concordo com a opniao da Beatriz, mesmo sabendo que o texto eh ficticio.
que mensagem vc quis passar?que inveja eh uma merda mas todo mundo sente? que quem fica reclado que eh muito invejada na verdade sente mta inveja?q as mulheres competem mto?
super mal escrito.sinto muito

Oi Gabi, não precisa dizer que sente muito, afinal gostar ou não gostar é pessoal.
Criei esse texto com a intenção de gerar uma reflexão sobre como tratamos a inveja hoje. É fácil identificarmos o sentimento em outras pessoas, mas na maioria das vezes negamos que sentimos o mesmo.
Já parou para avaliar a tendência de surgimento dos haters? Quantos blogueiros, atores ou qualquer personalidade pública são ofendidos diariamente através das redes sociais? Para mim há duas origens principais para esse ódio: o preconceito e a inveja.
Acho que todo mundo sente inveja em algum momento da vida: homens, mulheres, transexuais, assexuados ou quem quer que seja. Quem nunca se sentiu mal por “ficar para trás”? As mulheres competem, os homens competem, homens e mulheres competem entre si. No ambiente profissional isso é muito claro e é estimulado. Na vida pessoal é menos óbvio.
Dá para passar horas falando sobre competitividade, o mal e o bem que o capitalismo causa e outras teorias malucas – eu por exemplo acho que muitos casos de depressão hoje são causados pela comparação constante das nossas vidas com as vidas virtuais das outras pessoas.
Mas eu não sou nenhuma expert no assunto, só gosto de compartilhar as minhas opiniões (às vezes em forma de ficção) e ouvir a dos outros. Obrigada pelo seu comentário.
Abs,
Paola

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