Pecados Modernos – Ira, o pecado de todos os dias

Mal acordei e meu estômago começou a queimar. Gastrite. Mais especificamente, gastrite nervosa. O médico disse que eu deveria me estressar menos – como se a escolha fosse minha. Mas decidi que levaria o dia numa boa, independente do que acontecesse.

Chacoalhei meu filho na cama e ouvi o fatídico “já vou”. Meu marido estava há dois séculos no chuveiro, mas preferi tomar banho no banheiro do corredor em vez de gritar pela porta. Estava tudo bem. Respirei fundo e deixei a água fresca lavar qualquer vestígio de irritação.

Chamei Davi de novo. Tive que puxar o lençol e acender as luzes.

– Levanta ou vai perder o ônibus, filho. – Meu peito se encheu de orgulho quando ouvi meu tom sereno.

Beto continuava no chuveiro. Entrei para pegar o secador e mordi o lábio para não dizer que a falta de água em São Paulo era culpa dos banhos dele. Arrumei o cabelo daquele jeito bem armado e enrolado que eu gostava, e vesti um jeans e uma camisa branca. Depois passei o batom vinho que contrastava tão bem com a minha pele negra.

No fim Davi perdeu o ônibus escolar. Beto tinha uma reunião às oito e não podia levá-lo. Sobrou para a mãe. Mas tudo bem, isso não ia estragar meu dia. Seriam apenas trinta minutos até a escola.

– Davi, põe o cinto.

– Ah não, mãe.

Fechei os olhos e pensei numa praia distante, com águas translúcidas e areias claras.

– Põe ou eu vou doar o seu playstation.

Ele rolou os olhos, o que num outro dia qualquer faria meu sangue ferver. Mas hoje era uma vitória, então ri por dentro.

– Tchau, filho.

Me curvei para pousar um beijo em sua bochecha mas ele se afastou. Fiquei “no vácuo”. Mas tudo bem, crianças de nove anos nunca gostaram de beijinhos da mamãe na frente dos amigos.

Marginal parada. Como sempre, na faixa ao lado os carros andavam e na minha não. Dei seta e virei o volante. Alguém enfiou a mão na buzina.

– Sua preta filha da… – um homem gritou mas seu carro logo passou.

Lembrei da aula de yoga e fiz a respiração das narinas alternadas. Ponta dos dedos indicador e médio entre as sobrancelhas, dedo anelar fechando a narina esquerda. Respirei pela narina direita e a tampei com o polegar para expirar com a esquerda. Depois o contrário. Um minuto disso e eu consegui me acalmar. Pronto, estava tudo bem.

Cheguei na cafeteria depois de uma hora e meio de trânsito.

– Dona Ana, o fornecedor não veio entregar o café.

Por isso estava tão vazio ali no horário em que deveria estar apinhado de gente. Tive vontade de chorar, mas em vez disso ri.

– Então vá até o supermercado e compre cinco quilos.

O garoto cheio de espinhas na cara me encarou.

– Mas vai custar o dobro do preço!

– Caíque… – uma veia começou a pulsar em meu pescoço. – Isso é uma cafeteria. – Eu disse cada palavra devagar para ter certeza que ele entenderia. – Não podemos ficar sem café.

Dei o dinheiro na mão dele e o garoto se foi.

A manhã foi bem, a tarde mais ou menos. Uma garota ficou teclando no iPhone por quinze minutos depois que seu cappuccino tinha sido servido e veio reclamar que estava gelado. Engoli o sapo e disse que não aconteceria novamente. Outro cliente ficou indignado porque a caixa deu o troco errado, e mesmo depois de mil desculpas disse que nunca mais voltaria naquela espelunca. Uma fornada de pão de queijo queimou bem às quatro, na hora que o pessoal dos escritórios vinha tomar o cafezinho da tarde.

Mas estava tudo bem. Tudo ótimo.

Suspirei aliviada quando o dia acabou, agradeci meus funcionários e fechei a loja. Peguei mais uma hora de trânsito para voltar, um motoqueiro arrancou meu retrovisor, mas finalmente cheguei em casa.

– Oi amor.

– Chegou tarde, Ana. – Beto disse sem tirar os olhos da televisão.

– Muito trânsito. Mas tudo bem. – Sorri para meu marido e para mim mesma, era a primeira vez em anos que eu conseguia passar um dia inteiro sem gritar ou arrancar os cabelos. – O que você fez de janta?

– Pedi pizza. – Ia acabar com a minha dieta, mas eu bem que merecia um ou dois pedaços de pizza para comemorar. – Mas acabou. Toma um iogurte, amor.

Eu era palha seca e aquilo a faísca que faltava. Senti o fogo da ira me queimar por dentro e por fora.

Meus passos até a cozinha foram calculados. Abri a geladeira e enchi os braços de potinhos de iogurte. Voltei para a sala. Joguei um nele e o líquido rosa explodiu em seu pijama.

– Que isso, Ana? Tá louca?

Joguei mais um. E outro. Ele estava tão chocado que apenas levantou os braços para se defender do bombardeio de lactobacilos vivos. Davi veio do quarto para assistir a cena.

– Mãe, você tá descontrolada!

Atirei o último potinho. Olhei a sala toda suja.

– Vocês dois, limpem essa bagunça. – Eles me encararam boquiabertos mas acenaram com a cabeça concordando. – E amanhã à noite quero uma pizza de pepperoni só para mim.

Pronto. Nada como uma explosão de fúria para me deixar mais calma.

Agora estava tudo bem.

2 comentários COMENTE TAMBÉM

Hahaha q azar o dessa moca. Era um daqueles dias em que emelhor dormir e acordar de novo. Ja tive varios momentos de furia e a melhor parte era a explosão, porque depois parece que acalma. contextualizacao excelente. Reflete bem Sp. Ilustração linda. Parabéns autora.

Oi Juliana. Obrigada, que bom que você gostou, fico super feliz!
Também tenho meus dias de fúria, mas quem nunca né? 🙂
Beijão!

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