Pecados Modernos – Avareza, nem sempre um pecado

Almoço da firma. Um ritual antigo e complexo, cheio de regras e objetivos obscuros. À primeira vista, um momento de confraternização, onde as pessoas abrem-se além de aparências, ternos e atitudes profissionais. Tudo começou com uma pergunta inofensiva:

– Alguém tem planos para o almoço?

Feita pelo diretor, ganhou o peso de uma convocação. Todos se agitaram nas cadeiras almofadadas e deixaram e-mails escritos pela metade e análises não terminadas enquanto levantavam-se em um efeito dominó ao contrário.

Esfreguei meus olhos estreitos e segui o fluxo. O diretor raramente tinha tempo de almoçar com o time, e quando isso acontecia todos os gerentes ignoravam as agendas e remarcavam compromissos que podiam esperar. Era uma ótima oportunidade para mim, única estagiária de finanças, de conversar com os mais experientes e aprofundar relacionamentos que nunca deixariam de ser superficiais.

Contudo, estávamos no fim do mês. Meu cartão refeição poderia sair flutuando tamanha sua falta de saldo. Temi que minha agonia se tornasse palpável enquanto todos discutiam o lugar do almoço.

– Vamos na Joana – o diretor sugeriu.

Apesar do nome simplório, era uma dessas cantinas novas e badaladas. Suei frio, mas forcei um sorriso em concordância.

Éramos oito pessoas, todos do time de finanças. O garçom deixou o cardápio e escaneei as opções pelo preço. Meus olhos pararam na única de menos de trinta reais.

Spaghetti al sugo di pomodoro. Macarrão com molho de tomate.

Fui uma das primeiras a pedir. Ouvi em seguida nomes como penne, risotto, fettuccine, que não seriam aterrorizantes se não fossem seguidos de ingredientes como trufas, açafrão, cordeiro e frutos di mare. Bebidas? Pensei em pedir uma água mineral, mas desisti ao perceber que as garrafinhas chiques de vidro custavam sete reais.

Comi ao perfume de delícias alheias, o amargor da conta impedindo-me de aproveitar o sabor dos tomates frescos e do manjericão colhido da horta. As pessoas riam, conversavam sobre amenidades e bebericavam seus sucos de frutas exóticas importadas.

– Sobremesa?

Panna cotta, tiramisù, fondant au chocolat. Recusei, em alto e bom som, agarrando-me à esperança que os outros percebessem.

Conversei e sorri, evitando pousar os olhos sobre os doces servidos em pratos decorados. Algumas pessoas fechavam os olhos de prazer ao provar sabores de mascarpone, creme de leite e frutas do bosque. Concentrei-me no Sonho de Valsa que tinha na gavetinha da minha mesa.

– A continha, por favor? – o gerente de contabilidade pediu depois de mais de uma hora de banquete.

A pasta preta de couro foi entregue ao mesmo gerente. Ele a abriu e avaliou seu conteúdo. Entrelacei os dedos embaixo da mesa, espremendo-os até começarem a doer.

– Dividimos igual? – o diretor perguntou.

Meu sangue gelou.

– Não comi sobremesa e não tenho filho desse tamanho – a mulher do fiscal brincou.

– Sentou, sorriu, a conta dividiu – o babaca de contas a pagar retrucou.

Ninguém voltou os olhos para mim.

– Quanto deu para cada? – minha chefe, a gerente de controladoria, indagou.

– Setenta e dois.

Tive vontade de chorar. De puxar os cabelos como uma louca desvairada. Setenta e dois reais por um macarrão com molho de tomate? Por um momento imaginei-me explicando que ganhava uma mixaria de salário, que pagava a faculdade com dificuldade e que tinha pedido um prato mais barato porque precisava economizar.

Achariam que eu era uma avarenta.

Meu rosto ficou vermelho só de pensar em assumir aquilo. Fazer extravagâncias parecia ser cool naqueles dias, uma mostra de status. Abri a carteira. Levantei a cabeça ao colocar o cartão de crédito já estourado na mesa; pelo menos levaria a facada com dignidade.

– Deixa que eu pago sua parte, Ana.

Fiquei muda de choque por alguns segundos.

– Não Júlia, não precisa…

Minha chefe olhou-me com gentileza e devolveu meu cartão.

– Já fui estagiária, me lembro bem como é – respondeu com uma piscadela.

Aquele dia mudou minha percepção sobre dinheiro. Ao longo dos anos, uma nota de cinquenta reais continuava com o mesmo valor líquido, mas o valor para mim mudou pouco a pouco. Lembrei-me disso quando, oito anos depois, decidi pagar o almoço da minha estagiária.

Vi nos olhos dela o mesmo brilho de alívio que provavelmente minha ex-chefe vira nos meus naquele dia. Não, não era avareza, era apenas o desespero dos que vivem com o dinheiro contado. Avareza seria se eu não me dispusesse a devolver o gesto, num ciclo saudável que regia as boas ações no universo.

Era fácil se lembrar dos pecados dos outros, mas impossível se esquecer da generosidade quando ela vinha exatamente no momento em que precisávamos.

Eu era só mais um elo naquela corrente. E havia acabado de formar o próximo.

7 comentários COMENTE TAMBÉM

Lindo, lindo, lindo! Sensacional!
bjs!

Obrigada Natasha, que bom que gostou! Você como sempre muito querida! 🙂 Super beijo!!!

Nossa… Eu não sou estagiária, mas também vivo com o dinheiro contado. E quando essas escolhas de restaurante aparecem… Sempre é um drama, mas pelo menos aqui todo mundo tem abertura de dizer que está sem dinheiro. Mas sua atitude foi linda, assim como a da sua chefe e como imagino que sua estagiária um dia fará!

Oi Camilla, tudo bem? Fico muito feliz que você tenha gostado! Na verdade esse é um conto fictício (apesar de ser inspirado na história real de um amigo), mas esqueci de colocar essa observação no texto! 🙂
É uma série de contos, cada um sobre um pecado diferente! Se vc tiver um tempinho, leia os outros e me diga o que achou!
Beijão! :*

Amei o conto!! Muito bem escrito, divertido e realista! Parabéns!!

Oi Cá, sua fofa! Super obrigada pelo comentário, ainda mais vindo de outra escritora! 🙂 beijão!!!

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