Um Ano Sabático – parte 2

Attraversare

Eu estava lá, no alto do Duomo de Milão, olhando a cidade e me sentindo abraçada, quase protegida por aquela arquitetura. Agradeci por estar ali, pelos dias lindos e divertidos que tive em Londres, e finalmente, eu estava na Itália… A conexão Londres-Itália tem história.

Voltei no tempo e lembrei que a primeira vez que estive em Londres foi em 1998. Foi amor à primeira vista. Londres, pra mim, é um lugar onde as coisas acontecem – arte, moda, arquitetura… e muitas construções. A cidade está sempre crescendo, mudando, mas ao mesmo tempo, conserva suas tradições, sua essência. Além disso, gosto do humor inglês, e também (e muito) da sua música. Grande parte dos melhores músicos são ingleses ou formaram suas bandas na terra dos chá das 5: Adele, Eric Clapton, David Bowie, George Harrison, Joss Stone, Paul McCartney, Elton John, Jamie Cullum, Amy Winehouse e as bandas Cold Play, Blur, The Cure, só pra citar alguns nomes. Tudo é organizado e funciona. E foi por isso que em maio de 2012, escolhi Londres, para estudar e aperfeiçoar meu inglês.

Eu nem sonhava com sabático. Eu nem pensava em Itália. Estava ainda recolhendo os cacos, tratando da minha saúde, e começando a ter coragem de me movimentar… Estava muito cansada. Queria pegar um avião e ir pra longe pra esquecer tudo. Ficar quietinha.

Eu sei que vocês esperavam mais da Itália, e vem, mas não poderia deixar de contar essa parte da estória que foi importante nessa minha trajetória.

Peguei minhas férias, preparei a viagem, organizei tudo, planejei cada detalhe. Mas desde a minha chegada, num domingo lindo de Sol, Dia das Mães, até a 5a feira seguinte, deu tudo errado. Eu só precisava me sentir segura. Aconchegada. E foi tudo o que  não aconteceu.

Hoje, quando eu lembro, dou risada, mas para quem, naquele momento estava muito  frágil, foi o caos. Durante 5 dias eu fiquei meio homeless, do hotel para uma acomodação péssima (com direito a visita de um ratinho), da acomodação péssima para o hotel, resolvendo coisas que deveriam ter sido resolvidas, somada à dificuldade de entender e me fazer ser entendida (reclamar o que eu havia comprado e tinha direito em inglês), e ainda, estudar.

Um dia, tive uma crise de choro. No meio da rua. Cena de filme. Caminhei não sei quanto tempo chorando. Chorava por tudo, mas no fundo, pela perda, por me sentir sozinha no mundo, por não ter mais mãe. Alguém chegou a oferecer ajuda. Há esperança nesse mundo.

Enfim, consegui a acomodação que esperava e pela qual havia pago, mudei e teria um fim de semana tranquilo.

É então que entra a Itália nessa estória pela primeira vez, em maio de  2012…

Um casal de amigos que mora em Londres (motivo pelo qual também escolhi passar as férias lá) já tinha feito o convite para passarmos o fim de semana em Bérgamo, ao norte da Itália. De lá, pegaríamos um trem e seguiríamos para o Lago Di Garda, e de lá para pequena Sirmione.

Mas ainda pairava uma nuvenzinha negra sobre minha cabeça e para sair de Londres enfrentei um certo stress. Me atrasei, perdi um trem, peguei outro, cheguei no aeroporto, mas para piorar, a companhia aérea resolveu revistar nossas malas, e surpresa! No fundo da minha mochila estava perdido o vidrinho de um remédio antroposófico (!!!). Caos. Por pouco, bem pouco, quase eu e meus amigos perdemos o vôo para Bérgamo (anotem isso).

Finalmente, o sábado lindo de Sol e com paisagens incríveis. E estávamos na Itália, tudo já estava atrasado ou poderia atrasar mais. E estaríamos todos desculpados. Achei isso bom. Me entreguei aqueles momentos e me senti profundamente relaxada como há tempos não me sentia. Tive meus momentos de contemplação, fiz muitas fotos, tomei vinho e gelatto. Um dia perfeito. Isso sim eram férias!

No dia seguinte, pela manhã, minha amiga pergunta: “Vocês sentiram o terremoto?” Terremoto??!! “Sim, terremoto. E dos grandes. Atingiu principalmente Modena, Ferrara”. Sim, eu senti, mas jurava que era por cansaço (e muito vinho)… Sabe aquela sensação de cair da cama…Confesso que fiquei meio impressionada, mas pensei, nada poderia ser pior pra mim, naquele momento, que ter perdido minha mãe.

Aproveitamos nosso domingo, sem terremoto, passeamos pela bela Bérgamo, e eu retornei para Londres sozinha.

No caminho de volta, um pouco cansada, e tensa  por retornar sozinha, algumas emoções conhecidas voltaram e me rodear. Comecei a  observá-las, como uma parte separada delas. Para não ficar pensando bobagem, comecei a escrever, reler minhas notas de viagem, ver minhas fotos, até que uma especialmente chamou minha atenção: a dos trilhos da estação de Bérgamo para o Lago Di Garda. Era uma boa foto. Sou meio fascinada por trilhos de trem, ferrovias. E nesta havia algumas florzinhas vermelhas que lutavam bravamente para romper o cimento entre os trilhos da estação. Lembro que enquanto esperávamos o trem (que estava atrasado) enxerguei uma beleza única ali. A delicadeza das flores, sua fragilidade, sua cor viva, no meio daquele lugar rústico, bruto e elas ali, procurando a luz do Sol, um espacinho para florecer… Afinal a vida também não é assim? Nos trilhos, a frase vietato attraversare… Attraversare. Confesso sem medo de parecer clichê, lembrei sim do livro Comer Rezar Amar, quando Elizabeth, realiza o sentido da palavra em italiano e traduz para o seu próprio idioma. Era isso. Simples assim.  Eu estava atravessando uma fase difícil. E não ia conseguir chegar em lugar nenhum se parasse. Tinha que seguir adiante. Não bastava pegar um avião, atravessar o oceano – era necessário querer e atravessar as minhas próprias barreiras. Queria de volta minha saúde, minha alegria, minha coragem. E para isso precisava romper com tudo que não me fazia mais feliz, sair da zona de conforto e me abrir para a vida. Ser literalmente chacoalhada por um terremoto. E foi na Itália.

Assim, deletei a palavra vietato, o diário e o álbum de fotos dessa viagem (que aconteceu entre maio e junho de 2012) ganhou o nome Attraversare. E durante esse ano todo attraversare virou meu mantra.

Olhei para o céu azul azul, lá no Duomo di Milano, um ano depois desses episódios e tudo fez sentido. Fechava-se um ciclo. Foi necessário um ano para estar onde eu estava e naquele exato momento. Foi um sentimento puro e claro de pertencer ao universo.

Maio de 2013, a ponte Londres Milão

Era um lindo domingo de Sol e céu azul em Londres. Eu tinha tempo suficiente para pegar o trem para o aeroporto de Gatwick se na tão organizada Londres, também ocorressem imprevistos: a estação onde eu pegaria meu trem estava fechada.  Sem aviso prévio! Sim, porque eles avisam antes quando isso acontece. Conseguir um táxi num dia como aquele, de última hora não era uma boa ideia. Estava muito perto da London Bridge. Mais rápido pegar um ônibus e seguir até lá.

Era a segunda vez que tinha que correr em Londres para pegar um trem para chegar na Itália. Senti um mix entre nervosismo e entrega. Ai se eu perder o trem… Quando cheguei na estação, uma fila enorme para comprar o ticket do trem. Oh no!!! Minutos depois com o ticket na mão e uma energia que tirei não sei de onde, corri muito (eu e Camila, minha sobrinha que está morando lá e foi até a estação me dar apoio) e por três minutos não me deixaram embarcar. Três exatos minutos que o trem já estava atrasado, parado na plataforma. Fecharam as portas! Ainda bem que eu vou para Itália! Três minutos!!! Pensei.

Quando embarquei no trem seguinte, lotado de ingleses, turistas ou não, a caminho de Brighton, em busca da vitamina D do mês, já fui pensando no que faria chegando ao aeroporto: trocar a passagem ia custar caro. Mas era isso ou ficar mais um dia em Londres. Ou relaxar, entrar na onda do dia e ir para Brighton…

Por sorte, quando cheguei no aeroporto, a porta do meu vagão abriu exatamente em frente ao corredor que me levaria ao portão de embarque. Mais uma vez, meu físico foi desafiado – Run Forrest, Run! Corra Lola, Corra! E cheguei! Dois minutos antes de fechar o portão de embarque. Quando alguém da companhia aérea veio chamar minha atenção por ter “rompido” os cordões da fila, baixou meu espírito italiano e fui firmeNo no, I have two minutes and I will do my check in now. Assim, embarquei, cheguei em Milão, e apesar da minha mala  chegar 24 horas depois, estava finalmente na Itália, e agora, pronta e entregue para ser chacoalhada de novo.

13 comentários COMENTE TAMBÉM

Adorei!!! Acho que me identifiquei com muita coisa que vc viveu…Tb penso num periodo sabático,rs A propósito,as florzinhas vermelhas são papoulas.Simplesmente encantadoras,nascem como um mato,que eles cortam sem dó quando querem cultivar alguma coisa 🙁
Abç

Oi Mar, tudo bom? Que bom… Esse é o “barato” de compartilhar nossas histórias – sincronizar com outras histórias. Ahhh… Sobre as florzinhas, verdade! As papoulas tão lindinhas. Ainda bem que “eternizei” algumas na minha foto.
Beijo grande e obrigada pelo seu comentário

Preciosa Kareen, voce eh show!!!!!!!!!!!!!!!

Iakissodara, que máximo! Quando chegar, aproveite muito. Viva!

Adrianne! Somos todos. A vida e a chance de compartilharmos um pouco dela. Bjs amada

Adoro quem escreve assim como fala… Pelo menos é essa impressão que eu tenho. Dá “alma” ao texto que obviamente é cheio de emoção. É disso que eu gosto!
=)

Oi Gabriela, que legal seu comentário… Você pegou rssss… é assim mesmo que eu falo. É bem honesto e de coração.
Adorei, obrigada!
Beijo

estou amando !!!!! também estou me prepaparando para o meu período sabático !!!!

(ups respondi seu comentário lá em cima rsss) Iakissodara, que máximo! Quando chegar, aproveite muito. Viva!

Oi Kareen!
Estou adorando sua história e me emocionei lendo ela… logo quero ver a continuação :)))
um beijo!

Oi Giu tudo bom?! Que ótimo! Obrigada! Já tem post novo hoje da parte III, Cinque Terre
Bjs e volte sempre 😉

Ola Kareen. Gostaria muito de saber onde encontro esse conga que vc está usando na foto (bege) porque ando procurando e não acho…..beijos.

Oi Divimary, tudo bom?
Puxa, esse eu comprei há tempos na Bensimon, em Paris. Não sei se você encontrará aqui… Eles vendem on line mas não para o Brasil. Mas vi também na Itália e em Londres, em lojas de multimarcas.
De todo jeito, o site deles é http://www.bensimon.com/en
Boa sorte! E se conseguir comprar dá a dica aqui pra gente.
Beijos

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